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jan

Grifes anunciam com idosas, mas ainda não criam para elas

Pelos últimos três anos, a Selfridges, loja de departamento britânica, vinha dedicando suas vitrines – todas as 13 – a uma série de “Bright Young Things” (coisas jovens brilhantes), dúzias de estrelas da moda e da arte em ascensão, incluindo nomes como Simone Rocha, Christopher Shannon e Maarten van der Horst, quem a loja acredita que irá moldar o modo de vestir e de comprar do ano que começa. Uma nova geração para um novo ano.

Mas não em 2015. Desta vez, o empório revelou suas vitrines dedicadas a “Bright Old Things” (BOTs), ou coisas antigas brilhantes: 14 homens e mulheres de certa idade, que mudaram de carreira tardiamente, em direção à moda e à arte, num momento da vida em que a maioria das pessoas começa a pensar em dizer adeus às tendências.

O projeto da Selfridges

“É tradição nesta etapa do ano focar no que é novo e no que vem por aí”, diz Linda Hewson, diretora-criativa da Selfridges e a mulher por trás do projeto. “Decidimos mudar essa mentalidade.” A juventude já é coisa antiquada na moda.

A Selfridges, no fim das contas, é apenas o último membro a ingressar num movimento que começou em 2010, pelo fotógrafo Ari Seth Cohen e sua série de blog, livro e documentário Advanced Style, que foi logo seguida em 2013 pelo documentário britânico Fabulous Fashionistas, mostrando os guarda-roupas de mulheres em volta dos 80 anos. A noventona Iris Apfel ser alçada a ícone fashion (ela foi recentemente assunto de um documentário de Albert Maysles) e a busca de mulheres mais velhas para estrelas campanhas de moda e beleza – como Charlotte Rampling (68), Helen Mirren (69), Diane Keaton (69) e na última semana Joan Didion (80) – integram esse rol.

As campanhas da Céline

Até a quarentona Julia Roberts (47) é a atual modelo da Givenchy, e três vovós foram chamadas para estrelas anúncios da Dolce & Gabbana.

Julia Roberts para Givenchy

Esse movimento não é à toa, e vem na onda da “revolução de longevidade”, assim nomeada por um relatório de 2014 do Bank of America Merrill Lynch, que constatou que a riqueza média de pessoas com mais de 50 anos fica em US$ 765 mil nos Estados Unidos, e £ 541 mil (US$ 690 mil) no Reino Unido, onde pula para £ 723 mil na faixa entre 60 e 64 anos. Adiciona aí o empoderamento econômico sobre a jovem geração que enfrenta dificuldades no mercado, e a terceira idade se torna alvo preferencial da moda.

Mas destacar os idosos em suas campanhas e dedicar serviços a um público mais maduro ainda não significa desenvolver um design para eles. A verdade é que as passarelas ainda são cheias de minissaias, calças skinny e regatas.

“Este é meu lema”, diz Sue Kreitzman, 75 anos, uma das BOTs da Selfridges (e ex-escritora e apresentadora de programas culinários, hoje artista): “Não use bege – isso pode matar você”. Ela se refere ao escasso leque de opções que sobram na moda para mulheres mais velhas. Se tem suas roupas feitas para ela, customizadas por artistas amigos.

A BOTs Sue Kreitzman

É preciso ver as pessoas mais velhas como as crianças vêm suas mães: não velhas, mas elegantes adultas. É essa realidade que o projeto da Selfridges expõe para todo mundo ver: a relação contraditória do mundo da moda com o conceito de idade.

Por que o negócio é o seguinte: BOTs com idades como a de Molly Parker, 82 (famosa escritora que virou pintora) estão ao lado de outros como Sand Laurenson (uma policial que virou artista), ainda em seus 40, que não se parecem nada velhos. Meia-idade talvez, mas velhos? Linda, a diretora-criativa, diz algo de inconfortável: “Nós realmente removemos a idade da equação”. “Decidimos que a idade era irrelevante – o que importava era a mudança de carreira.” O título é a penas um gancho para manter a ideia consistente.

A resposta seria cínica apena fora do mundo da moda, onde o declive de envelhecimento começa já em volta dos 27, e a mensagem é uma perversão da Ode à Grega, de John Keats, que diz que “beleza é verdade”. Troque para: “Beleza é juventude,jovem beleza; que é tudo que sabemos na terra e tudo que precisamos saber”.

Só que não, porque todos sabemos que o mundo da moda é fortemente guiado por pessoas de idade avançada, de designers como Karl Lagerfeld e Giorgio Armani, ambos por volta dos 80, Ralph Lauren (75) e Donna Karan (66) a editoras como Anna Wintour, Carine Roitfeld e Franca Sozzani, todas na cada dos 60. O meio é guiado por uma velha geração que vê designers como Jack McCollough e Lazaro Hernandez, de 36 anos, da Proenza Schouler, como “os garotos”, e o time milanês Tommaso Aquilano e Roberto Rimondi, da Aquilano, em seus 40 e poucos, são “jovens designers”.

Há uma disconexão da realidade: de um lado, a moda prega eterna juventude; de outro, ela continua na mão de velhos. Mesmo para uma indústria de jogadas tão contraditórias (como lançar coleções de verão em pleno inverno e vice-versa), isso é difícil de conciliar. Seria pura hipocrisia? Uma síndrome de Dorian Gray?

A moda é guiada pela economia, e voltada para quem pode pagar por ela. Se é fato que o novo mercado de consumidores na faixa de 60 a 80 anos estão com mentes abertas para a moda e têm renda disponível, é hora de criar para eles. Alguns designers já começaram. É possível ver Joseph Altuzarra, 31 anos, criando casacas na Christian Dior. “Acho que está mudando”, acredita a BOTs Sue. “É necessário.”

Não dá para ter consumidores e não atendê-los. Somos velhos o suficiente para saber disso.

Fonte: NY Times

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