28
jan

Vanessa: a minha Garota Verão

Afe! Quanto julgamento! Quantos olhares reprovadores. Ao invés de libertar, o calor e o seu corpo podem te aprisionar, sabia? Saia longa, blusa com manga, puxa daqui, esconde dali. Aii, que calooorrr!!! Quer saber? Esse corpo aqui, dessa que vos escreve, vai ser livre. Até por que é o único que eu tenho no momento. Corpo este que no verão de 40ºC não vai poder ficar escondidinho para ser absolvido do julgamento alheio. Não dá pra trocar de corpo assim, tipo Face OFF o filme. É um processo, certo? Leva tempo. Então se você chegou até aqui em situação “irregular” se liberte!

Fico impressionada como tem gente que se importa com o corpo alheio. E como tem gente também que faz pouco caso do corpo que tem. Coisa de louco! Eu sei, é reconfortante olhar e julgar o outro. Dá uma segurança, né? Já falta de amor próprio só faz mal! Quando eu era adolescente, um grupo de garotas mais velhas da minha praia adorava julgar a bunda dos outros. Diziam elas, observando o vai e vem das areias: “Tu viu quanta celulite que a fulana tem? Nossa, que horror! Como tem coragem de colocar um biquíni?” Eu, que sempre fui gordinha, tinha um outro olhar. Achava que a tal fulana tinha direito de ir à praia de biquíni com ou sem canga, e mais, que a fulana deveria ter suas razões, genéticas ou não, para levar aquela bunda enorme para a beira da praia. Até porque, tirar a bunda e deixar em casa no verão não rola, né?

Passados os anos a patrulha só aumenta. Com mais quórum, já que a internet ampliou o poder dos críticos. Tem a patrulha do corpo perfeito, dos desocupados, dos mal amados e, a que mais detesto, da maldade. Julgam, condenam, chocham. No fundo tanta privação deve acabar aprisionando. Nada mais libertador do que se ter o corpo que se quer nos dias de hoje, magro ou gordo. Uma amiga me disse um dia que ser gordo nessa ditadura de beleza é quase como usar drogas. É proibitivo! Como tudo que é proibido dá vontade de experimentar… fica a dica!

Enfim, aí, uma gordinha que participou de concurso de beleza regional virou tema de pauta nacional. Ora, quanta arrogância! Como ela teve coragem, né? Simples, foi lá e desfilou! Em algum lugar estava escrito que gorda não podia participar? Uma matéria de internet contava na chamada que a moça não tinha internet em casa. Ahh, então tá explicado! Se não tem internet, não tem vergonha na cara. É isso? Coitadinha, isolada do mundo virtual, não conhece os rígidos padrões de beleza nacionais – cochichavam as entrelinhas dessa mesma matéria. Será que se ela tivesse acesso aos meios de comunicação ela ousaria se inscrever no concurso? Claro que sim!!

Coisa mais patética e hipócrita essa sociedade! Salvem as meninas ingênuas e de coração aberto como a Vanessa Braga, que tem a coragem de quebrar paradigmas. Vivemos uma verdadeira escravidão contemporânea! Se a vida é o que acontece agora, não pense em vivê-la somente depois da próxima lipo. Reeducação alimentar é uma ótima, mas se o verão chegar e você ainda não tiver alcançado a sua meta, relaxe! Vai fazer o quê? Usar burca na praia? Aqui é Brasil, não a Faixa de Gaza. Abaixem suas armas, irmãos. Deixem viver cada um como quer. O sol tá forte para todos, e não aproveitar o verão é uma pena!

Aí a Claudia Laitano escreveu um texto que eu adorei. O final era assim: “Talvez não sejam apenas os rígidos e fantasiosos padrões de beleza a causa dessa patrulha da forma física alheia, mas uma dificuldade infantil em aceitar o ciclo da vida (corpos jovens vão envelhecer – se não morrerem antes) e a injusta distribuição de beleza no mundo (alguém sempre vai ser mais bonito do que você). Beleza, oportunidades, talento, saúde, dinheiro, nada disso é distribuído de forma equânime, o que é uma pena, mas só os muito tolos acreditarão que isso é motivo para ter vergonha ou se esconder. A praia é, sim, a passarela da desigualdade, mas é também a celebração do momento presente, da proximidade com a natureza e do inalienável e democrático direito de olhar e ser olhado – sabendo que a vida escapa ainda mais rápido do que a moça de corpo dourado que vem e que passa a caminho do mar. Por mais cheia de graça que ela seja.”

Adorei! Palmas pra ela e para a minha Garota Verão! Porque na minha opinião, o concurso da vida a Vanessa já venceu de virada.

Mauren Motta

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